25.9.17

Os carros de fórmula um e os baldes de tinta

- Empurre. - disse - Eu não posso me mover, a menos que você me dê este impulso.

Havia tantos pedaços de tecido rasgados no chão, e ela os enxergava de tão alto, como se não precisasse mais do par de óculos, como se o cérebro tivesse aprendido tão bem a lidar com aqueles percalços mundanos que, mesmo as imagens borradas refletidas nos seus olhos, ele tornara-se capaz de esclarecer com suficiente precisão. Ela podia montar um quebra-cabeças de onde estava, peça por peça, juntar côncavos e convexos, como se soubesse como tudo parecia antes de espatifar-se no chão. Os fatos estapeavam-lhe o rosto, porque ela era incrédula. Ou estúpida - estúpida, com certeza.

Sentou-se na borda do edifício, raspando os pés na parede, deixando marcas de borracha escura na tinta desbotada; era uma cena melancólica de inverno, onde o vento gelado lhe atiçava os cabelos e roubava-lhe a quentura do rosto, enrubescendo os lábios, e ela agarrava a borda do muro sobre o qual estava sentada com tanta força que as mãos avermelhavam-se, enquanto que os pés balançavam no vazio, pesados e indiferentes - era assim que os pensamentos funcionavam. Todos os dias, havia alguns poucos sóbrios, e havia aqueles que pareciam apenas surgir para que se criasse o desafio de serem domados. No fim do dia, ela quase deixava-se vencer, após as horas passadas em tentativas frustradas de colocar alguma organização sobre eles. Eles tinham um humor ácido, porém, esses pensamentos indômitos. Passeavam no cérebro como carros de fórmula um atravessando o olhar, borrões variados e difíceis de identificar, que iam jogando baldes de tinta sobre ela, numa rapidez tal que lhe bagunçava a análise de como ela devia pintar as aquarelas que iam-lhe aparecendo no decorrer do dia. Ela esperava que eles simplesmente se cansassem e decidissem funcionar como pensamentos normais, porque ela tinha escolhas a fazer - entre elas, pintar as aquarelas ou domar os pensamentos. As duas coisas não podiam ser feitas, junto de todas as outras, e desenhar os quadros sem que os pesamentos estivessem nos conformes, para ela, seria como tocar uma determinada música sem saber as suas notas.

Não se sabe por quanto tempo aquele seu pedaço irritadiço, parte perniciosa que há muito ela tentava evitar, martelou-lhe o pedido incessante, e nem quais estágios ela teve de derrotar antes de tal decisão. Quando foi encontrada, dias depois, ensopada da chuva do dia anterior, já não reagia. Não se sabia se havia alguma consciência dentro daquele cérebro. Eles a manuseavam como se ela fosse uma boneca de pano, como se nunca tivera vontades na vida e, além disso, mesmo com os olhos abertos apontados para um objeto ou outro par de olhos, ela apenas fitava um nada; o olhar trespassava tudo como se o mundo fosse invisível, e parecia focar-se em um fundo que apenas ela podia enxergar.

Ao redor dela, murmurinhos concluíam que aquilo certamente havia sido travessura daqueles pensamentos zombeteiros que, em um momento, pegaram-na desprevenida, ou exaurida. Foi alguém que disse, em tom bem mais baixo, quase como se não quisera ser ouvido, que ela apenas queria ganhar tempo; queria apenas desvendar a sua própria harmonia.

30.5.16

Eu insisto em histórias perdidas

Perdão por ter-me tão súbito apaixonada
Corada, sadia, e então doente
Sinto muito por enxergar diferente
A proximidade que esta distância
Me fez experimentar

Agarrei com alma estes seus destemperos convictos
De quem viveu a história crua da vida em meia idade
Antes tivesse matado o meu absurdo desnorteado
Tirado-me desse cruel circuito vicioso em que vivo
Este seu desejo e os ditos do seu lado tão paterno
Que eu estimei de espírito aberto
Nestas noites de torpor mais claro

Há duas cartas: ‘adeus’ e ‘até logo’
E eu não sei onde o girar da roda vai parar
Brinco na borda deste precipício tão criança
Que ainda criança me vê o seu olhar
E aquele discurso que você pedia que eu me fizesse
Bela autobiografia de fitas esvoaçantes
Com lindas cores, música, cheiros e sabores
Era apenas terna chuva caindo no mar

Era doce
Mas não era doce dentro de mim

“Verte o sangue!
Mas corta bem fundo
Onde você não quer mais sentir”

As histórias se perdem antes da metade
Antes mesmo da cena mais bonita
E eu insisto nas histórias perdidas
Porque não há mais nada para contar

Eu insisto em histórias perdidas
Não vou mais insistir em histórias perdidas

Todas essas histórias estão perdidas

12.8.14

Thank you, chief.

A vida toda é um retorno para o lar. Homens de negócio, secretárias, mineiros, apicultores, engolidores de espadas, todos nós. Todos os corações inquietos do mundo, todos tentando encontrar um caminho para casa. É difícil descrever como me sentia na época. Imagine-se andando por dias em uma nevasca; você nem percebe que está andando em círculos. O peso das suas pernas no seu andar, seus gritos desaparecendo ao vento. Quão pequeno você pode se sentir, e quão longe a sua casa pode estar.

Lar. O dicionário o define como um lugar de origem, bem como um objetivo ou um destino. E a tempestade? A tempestade estava toda na minha mente. Ou como Dante, o poeta, colocou: no meio da jornada da minha vida, eu me vi numa floresta escura, pois tinha perdido o caminho certo. Eventualmente, eu encontraria este caminho, mas no lugar mais improvável.
"

(Trecho inicial de Patch Adams, 1998)

6.3.13

Fitas no ventilador

Pelas palavras engasgadas de cantos empoeirados, memórias cavando em concreto acinzentado, correndo com as frases sob as mãos cerradas, onde os dedos apertam-se com alegria, com falta de atenção, com pavor e com fúria, esbravejando pela imagem das recordações contraditas, como pequenos vinis cujo segundo lado abafa-se num longo riscado, queria não contar mais histórias, porque estas não são mais para serem contadas nem lembradas, doídas nem aprendidas, e são tudo o que existe nestes tantos anos; queria voltar ao instante em que o fôlego era tão mais - ainda mais - destreinado, orações soando sem nexo, sussurros que a tempestade perdia num suplício desimportante, e as letras embaralhavam-se grudadas em uma grande teia, prontas para serem devoradas por um argumento onde a derrota, para o vencedor, nunca é feita de mágoa e de um hiato aflitivo, senão de uma tentativa de ressaltar que há o dia e há a noite, o quente e o frio, o sim e o não, sem nuances que palpitam a cada estação, em cada momento e para cada situação; e que, muito além de desvanecer o sorriso no olhar, destoa o andamento de uma sinfonia já tão desordenada, trovejando, sem saber para quais notas seguir, quando a vibração do piano deixa de descrever um conto em melancolia e cai em lágrimas de um desespero mudo, derrubando os prédios e as suas janelas de cortinas coloridas e construindo fortalezas de pedras e barro, sem portas, sem janelas, embaralhando no pensamento o que deve ser afastado e o que se deve manter bem junto ao corpo; queria que a quietude não tivesse reaprendido a assombrar como outrora fazia, quando não havia a companhia de quem me ensinou a viver tão bem esse absurdo, e foi embora quando fiz o vento bater nas minhas mãos; queria que nada mais fosse dito, pois de relevante quero que baste a maneira como dou os primeiros passos toda manhã. Pois não sei nada melhor do que já é sabido e as palavras soam como fitas de plástico amarradas no ventilador; pois quando explico, abro mais feridas em mim e em quem ouve; porque não consigo mais disfarçar essa perturbação de quem navega por mares sem direção nem vela.

Porque em silêncio, eu sou alguém melhor.

23.10.11

8.5.11

Ignorância

Não sei predicar meu coração. Fazer com que os olhos fechados acendam-se em uma aurora de vida, jamais entregues, no terror que experimentam dentro de um corpo trancado, perdido dentro da mente, olhos expressando equívocos e encarando sem compreender, e sentindo-se com a obrigação dessa percepção ao menos instintiva, se não racional, pois são a linha que separa o interior do mundo externo. Em uma época que caminhar sozinho é um fator determinante do alcançar ou não, eu quero me dispor a fazer mais essa experiência, agora de próprio punho; quando, em tantos anos, o inconsciente dessa ação - sem nunca deixar de perceber a minha culpa - me fez padecer.

Agora eu quero acreditar que a natureza é páreo para toda a minha incerteza, para a minha ignorância. Agora quero que os pedidos sejam feitos com palavras claras; e as palavras, essas não serão mais instrumento de dor ou de amor. Não trarão mais consolo nas noites de angústia, tampouco farão rir. Não será mais usada a pilha de papéis em branco, que transforma armários em guardiões de fantasmas, cujas folhas onde ensaiei histórias mancham com os esforços frustrados de tentativas aflitivas de perdão, à mim mesma, marcadas de um sentimento que machuca o coração, como uma flecha em brasa que, todos os dias, deixa uma ferida simbolizando tudo que há muito tento deixar para trás, deixando cicatriz sobre cicatriz, fazendo-me reconhecer em pleno desespero a esperança esvaindo-se, mudando seu trajeto para longe, fazendo-se silenciosa, onde as palavras mal foram escritas.

Não vou mais desacreditar dos momentos em que os olhos molhados perdem a calma, clamam, e preenchem meus devaneios de questões impossíveis de serem resolvidas, como se as contas de matemática não tivessem mais soluções, como se todos os gênios de cálculo tivessem, num repente, desaparecido da face da Terra, ou simplesmente desistido de fazer o que faziam de melhor porque não fazer exige menos esforço frente à todas as facetas da vida, todos os trabalhos, todos os assuntos, todo o cansaço, todas as relações construídas, incertas, de medo e de afeição.

Dessa forma, não faço suprema a tranqüilidade do acordar. Como foi em certos dias em que o respirar frenético ao meu lado, ao mesmo tempo em paz, despertou-me. Ao contrário, faço inferno. Porém, a conclusão que surgiu num instante em que o silêncio calava os murmúrios - que tentavam fingir-se palavras - é que, se a condição é existir em pesadelo e a esperança bateu a porta na minha frente, que agora eu proíba meus personagens de me levarem para onde eu me sinto alguém, pois viver apenas a minha realidade já não me basta.

24.2.11

Próximos

nós somos os próximos
mergulhando suavemente
com balões coloridos debaixo
de cada um dos nossos braços

somos os próximos
a sentir, a manchar, a fugir
os próximos de nomes marcados
os culpados
sujos
calados

assistindo a chuva cair

seremos esmagados
cortados em pedaços menores
afogados
divididos

e perdoados

25.11.10

Candy

A cachorrinha que sorria...


R.I.P. ...

3.9.10

17.5.10

Friedrich Schulhoff

Como nas muitas outras vezes, do fim do corredor, a silhueta sentada na cabeceira da mesa da cozinha faz-se perceber.

Ele não acende as luzes; apenas anda devagar, vencendo o piso barulhento, criando pouco ruído. Passo a passo, tateando as paredes lisas, esbarrando os dedos em quadros na parede, ouve o tilintar dos pequenos sinos pendurados na parte superior do batente da porta, despertados pela precipitação da sua passagem.

Os raios cortados da luz que invade a janela da cozinha chamam a atenção da figura sentada na cabeceira da mesa. Um copo de água pela metade repousa perto dos seus braços, próximo às suas mãos, com os dedos entrelaçados.

Embora não precise da confirmação visual, ela levanta seu olhar para a pessoa parada na porta. Perde alguns momentos com os olhos fixados nos olhos do outro e, por fim, ao olhar dele desviando do seu, direto para o chão, ela volta a observar o copo. Encosta as costas na cadeira e deixa os braços penderem para baixo.

Num gesto determinado e distante, ele busca a sua mão, forçando-a a levantar e segui-lo casa adentro. Com olhos molhados, ela se permite ser levada. São três as portas deixadas para trás, até que ambos parem. Ele oferece sua passagem para a moça, enquanto empurra a quarta porta, abrindo-a com cuidado.

Os objetos se confundem, e ela pensa por um momento que caminhar por ali, no escuro, seria tarefa difícil, porém possível. Como tudo ela acredita ser. Saber da existência da possibilidade, porém, não seria alívio suficiente enquanto uma maneira de realizá-la não fosse descoberta.

A luz é acesa num repente. Ela não esfrega os olhos, nem os fecha por um simples instante.

Ele segura sua mão e a leva para o centro da sala, em frente à escrivaninha. Esticando o braço e o dedo indicador, em movimento circular e em silêncio, aponta para os quadros em todas as paredes.

Um a um, ela analisa rapidamente os vários pedaços de papel emoldurados, indicando estudos em alguma área jurídica.

No centro da parede da porta, o retrato de Friedrich Schulhoff, figura histórica reconhecida por sua sabedoria e bravura perante a sua popular história de luta.

O homem se distancia dela e aponta com veemência para o retrato na parede. Balança o punho cerrado no ar freneticamente, com os lábios e os olhos apertados. Em tom resoluto, quase agressivo, cita uma das mais célebres frases ditas pelo personagem do retrato.

Após a última palavra, ela volta seus olhos para a figura do quadro que, muitos anos atrás, com sangue nas veias e ar nos pulmões, parecia julgar sem coração. Em sua presunçosa decisão ante a análise apenas do ângulo mais claro dos fatos, apontava os homens e os classificava de covardes, desmoralizando as suas batalhas silenciosas, deixando na história o seu próprio exemplo de coragem como o único tipo nobre do qual se deve seguir.

Num ímpeto de angústia, ela anda apressadamente até o homem e mostra-lhe as mãos manchadas de tinta. Esfrega-as em cólera e espalma-as novamente em frente ao homem, com o rosto enrubescido e o pesar de entender que não verá as mãos limpas novamente.

Assombrado, ele perde alguns segundos mirando as mãos exibidas na sua frente. Em seguida, faz uma tentativa de trocar olhares com a moça, esperando transformar sua expressão de surpresa em compaixão antes que os olhos dela o fitem; ela, porém, tem o seu olhar voltado às próprias mãos, em esclarecimento mudo, dando com o semblante perturbado ainda mais ênfase às palmas manchadas, e às manchas que começam a se alastrar pelos próprios braços.

Enfim, vagarosa e cuidadosamente, a moça fecha os punhos, acalmando a rigidez dos músculos. O homem a assiste suspirar profundamente, girar os calcanhares e caminhar em direção à porta, a fim de deixar a sala, enquanto o vestido florido de tons claros encosta no chão, arranhando levemente os tacos de madeira.

Embora não possa ouvi-la, ele adivinha o seu destino: a cozinha. Ela provavelmente senta-se na mesa, estica os braços, entrelaça os dedos, fecha os olhos ou perde o olhar no copo de água posicionado quase no centro do móvel.

Ele estende suas próprias mãos sob seus olhos e observa as manchas escuras de tinta cobrindo a sua pele, da sua longa luta de homem forte e destemido.