21.6.18

O piano

Abriu a porta cuidadosamente, mesmo sabendo que o ato era, em si, inútil, pois as dobradiças daquela casa antiga estavam tão velhas e enferrujadas que rangiam a qualquer passar furtivo casa adentro; súbito vento soprando a primavera podia avisar as pessoas que alguém entrara; este, esperando ser bem-vindo, que de hostilidades já se enchia quando pisava-se no asfalto portão afora todos os dias.

Ouvia-se um ruído constante que vinha de algum lugar do mar, abafado pelas ondas da maré forte àquela hora, e ela tentava capturar com o pensamento o sonido tão bonito para dias como aqueles, onde esmaga-lhe a impressão de não saber onde pisar, ou o preocupar-se se dobradiças estão lubrificadas o suficiente para que não haja ruídos e que pessoas não sejam incomodadas nos seus afazeres das rotinas da vida.

Todos os móveis, cobertos de um lençol amarelado, branco em seus dias mais áureos, eram protegidos de um pó espesso que há tempos já tomava os beirais das janelas da casa. O piano havia sido esquecido, símbolo da casa de tristeza para seus moradores, quando, no entanto, apenas reproduzia a melancolia do seu tocador. As teclas altas confundiam-se com as outras, e nenhuma delas respondia mais ao seu respectivo som.

Cansada, de cabelos esbranquiçados penteados para o lado, pendendo sobre os olhos marejados, pareceu ver em frente ao piano quem outrora tirava melodias que pareciam conhecer as suas próprias mãos.

Foi em um inverno onde o sol aparecia pouco brilhoso entre as nuvens que ela passou por aquela casa, anos atrás, e não soube precisar o nome da sinfonia que chegava sorrateira aos seus ouvidos, mas compreendeu que quem a tocava estava há tempos desejando que aquelas não fossem as suas notas, ou a sinfonia da sua vida, e ela percebia que seria escrever à alguém do povoado vizinho com bonita caligrafia e sua fragrância suave na carta como aquela pessoa que tocava aquelas notas esparsas no piano, onde os acordes não precisavam correr para seguir a melodia, havia vindo de muito longe, mais distante do que a imaginação pode alcançar, e como sentia falta daquelas flores que ornavam o jardim da frente da casa, exalando o seu perfume para além dos vilarejos, enquanto ouvia o ruído da máquina de costura trabalhando calmamente em um suéter que nunca poderia ser vestido, com suas longas mangas e colarinho de diâmetro tão fino, mas que lhe encheria os olhos de alegria por ter peça tão bela nas mãos, costurados por quem, após tantos anos, não lhe conhecia as medidas, apenas o coração.

9.4.18

Foi-se embora

Foi-se embora no mesmo dia em que me mudei. Saímos juntos acompanhando os sinos que soavam ao longe, indicando algum acontecimento festivo perto da estrada. Parei de sentir, naquele momento em que ela desvaneceu, soltou a minha mão e caiu suavemente no chão de concreto.

Achava que ela sabia dos seus percursos; sabia mais do que ninguém. E por isso, eu sei, ela mantinha em si uma tranquilidade de quem aceita os percalços e calmarias da vida sem pestanejar. Quando eu olhava os seus olhos, assistindo o vento acariciar as folhas de goiabeira, eu sabia que ela possuía um segredo que poucas pessoas tinham; era como se o vento fosse ela, e também a goiabeira. Isso fazia com que ela compreendesse, no sentido completo, mais simples e bonito que a palavra permite.

Talvez por isso eu tenha me sentido emudecer quando ela caiu. Por um momento, parecia que o meu amor estivesse indo embora também. Foi então que ela me sorriu. Disse-me com o olhar que eu era parte de tudo aquilo. Que amor não se leva embora nem se deixa aqui; ele continuava nela, na goiabeira, no vento. Ele continuava em mim.

3.3.18

Eu sei que ela andava distraída

Eu sei que ela andava distraída, ela não sabia de nada. Havia um certo timbre alto na cidade, estrondoso, que soava como um leão solitário que rugia procurando pelo seu bando. Não havia muitas pessoas na rua, àquela hora. A madrugada caía rápido, como um véu soprado de um furacão que abalava a cidade no início daquele verão.

Não se sabia, ainda, qual seria a conclusão daquele dia. O frio aumentava à medida que ela começava a correr avenida abaixo. Por fora, os braços estavam gelados; por dentro ela estava em cólera. Os faróis dos carros por pouco a perdiam, iam focar-se nos portões das casas e nas árvores que beiravam as calçadas.

Dizia-se que, perto daqueles dias, muitos anos atrás, nevara. Quem contava era o avô de uma menina do fim da rua, a que diziam que havia perdido a razão após uma grande tempestade, em que um raio atingira o seu melhor amigo imaginário, matando-o em poucos segundos.

- Não sofreu - ela dizia -, mas eu nunca mais o vi.

Balbuciava palavras de forma confusa, pois a cabeça há muito havia desistido de colocar sentido no que dizia. A tempestade era, para ela, um acontecimento distante e pouco alumiado. Mas há quem diga que ela costuma caminhar com os mesmos sapatos molhados daqueles dias.

14.2.18

Os desconhecidos

Ela dizia que talvez devesse deixá-los para trás. Talvez devesse esquecer-se que eles existiam, como se esquecia das outras coisas também. Talvez devesse deixar que as histórias renovassem-se continuamente, criando o tempo todo uma vida nova dela mesma, mudando suas emoções, pensamentos, e a maneira como ela agia. Talvez devesse deixar-se transformar em uma nova pessoa o tempo todo, dar-lhe um novo nome e um novo endereço.

Porque, pensou, ela não sabia, de qualquer forma, quem ela era. Não sabia mais o que lhe tinha acontecido, não sabia mais a que ela deveria reagir. Reagia às memórias encrustadas nos caminhos sinuosos do seu cérebro, pequenas informações sendo transferidas de um lado para outro; sofria, ria e refletia com elas, mesmo sem saber se tais memórias eram verdadeiras. Sem saber se elas eram as suas próprias memórias, ou histórias plantadas por desconhecidos que penetravam-lhe a mente nos seus dias mais escuros, permaneciam por certo tempo, excitando e confundindo o coração, deixando faltar-lhe o ar e a paz, perturbando os outros pensamentos que sempre se comportavam como uma grande e poderosa correnteza para serem reconhecidos por ela; e indo embora - esses desconhecidos - assim como vieram, um facho de sombra no dia ensolarado que desaparecia e deixava um rastro de melancolia, feridas e cansaço nos dias seguintes ao incidente.

25.9.17

Os carros de fórmula um e os baldes de tinta

- Empurre. - disse - Eu não posso me mover, a menos que você me dê este impulso.

Havia tantos pedaços de tecido rasgados no chão, e ela os enxergava de tão alto, como se não precisasse mais do par de óculos, como se o cérebro tivesse aprendido tão bem a lidar com aqueles percalços mundanos que, mesmo as imagens borradas refletidas nos seus olhos, ele tornara-se capaz de esclarecer com suficiente precisão. Ela podia montar um quebra-cabeças de onde estava, peça por peça, juntar côncavos e convexos, como se soubesse como tudo parecia antes de espatifar-se no chão. Os fatos estapeavam-lhe o rosto, porque ela era incrédula. Ou estúpida - estúpida, com certeza.

Sentou-se na borda do edifício, raspando os pés na parede, deixando marcas de borracha escura na tinta desbotada; era uma cena melancólica de inverno, onde o vento gelado lhe atiçava os cabelos e roubava-lhe a quentura do rosto, enrubescendo os lábios, e ela agarrava a borda do muro sobre o qual estava sentada com tanta força que as mãos avermelhavam-se, enquanto que os pés balançavam no vazio, pesados e indiferentes - era assim que os pensamentos funcionavam. Todos os dias, havia alguns poucos sóbrios, e havia aqueles que pareciam apenas surgir para que se criasse o desafio de serem domados. No fim do dia, ela quase deixava-se vencer, após as horas passadas em tentativas frustradas de colocar alguma organização sobre eles. Eles tinham um humor ácido, porém, esses pensamentos indômitos. Passeavam no cérebro como carros de fórmula um atravessando o olhar, borrões variados e difíceis de identificar, que iam jogando baldes de tinta sobre ela, numa rapidez tal que lhe bagunçava a análise de como ela devia pintar as aquarelas que iam-lhe aparecendo no decorrer do dia. Ela esperava que eles simplesmente se cansassem e decidissem funcionar como pensamentos normais, porque ela tinha escolhas a fazer - entre elas, pintar as aquarelas ou domar os pensamentos. As duas coisas não podiam ser feitas, junto de todas as outras, e desenhar os quadros sem que os pesamentos estivessem nos conformes, para ela, seria como tocar uma determinada música sem saber as suas notas.

Não se sabe por quanto tempo aquele seu pedaço irritadiço, parte perniciosa que há muito ela tentava evitar, martelou-lhe o pedido incessante, e nem quais estágios ela teve de derrotar antes de tal decisão. Quando foi encontrada, dias depois, ensopada da chuva do dia anterior, já não reagia. Não se sabia se havia alguma consciência dentro daquele cérebro. Eles a manuseavam como se ela fosse uma boneca de pano, como se nunca tivera vontades na vida e, além disso, mesmo com os olhos abertos apontados para um objeto ou outro par de olhos, ela apenas fitava um nada; o olhar trespassava tudo como se o mundo fosse invisível, e parecia focar-se em um fundo que apenas ela podia enxergar.

Ao redor dela, murmurinhos concluíam que aquilo certamente havia sido travessura daqueles pensamentos zombeteiros que, em um momento, pegaram-na desprevenida, ou exaurida. Foi alguém que disse, em tom bem mais baixo, quase como se não quisera ser ouvido, que ela apenas queria ganhar tempo; queria apenas desvendar a sua própria harmonia.

30.5.16

Eu insisto em histórias perdidas

Perdão por ter-me tão súbito apaixonada
Corada, sadia, e então doente
Sinto muito por enxergar diferente
A proximidade que esta distância
Me fez experimentar

Agarrei com alma estes seus destemperos convictos
De quem viveu a história crua da vida em meia idade
Antes tivesse matado o meu absurdo desnorteado
Tirado-me desse cruel circuito vicioso em que vivo
Este seu desejo e os ditos do seu lado tão paterno
Que eu estimei de espírito aberto
Nestas noites de torpor mais claro

Há duas cartas: ‘adeus’ e ‘até logo’
E eu não sei onde o girar da roda vai parar
Brinco na borda deste precipício tão criança
Que ainda criança me vê o seu olhar
E aquele discurso que você pedia que eu me fizesse
Bela autobiografia de fitas esvoaçantes
Com lindas cores, música, cheiros e sabores
Era apenas terna chuva caindo no mar

Era doce
Mas não era doce dentro de mim

“Verte o sangue!
Mas corta bem fundo
Onde você não quer mais sentir”

As histórias se perdem antes da metade
Antes mesmo da cena mais bonita
E eu insisto nas histórias perdidas
Porque não há mais nada para contar

Eu insisto em histórias perdidas
Não vou mais insistir em histórias perdidas

Todas essas histórias estão perdidas

12.8.14

Thank you, chief.

A vida toda é um retorno para o lar. Homens de negócio, secretárias, mineiros, apicultores, engolidores de espadas, todos nós. Todos os corações inquietos do mundo, todos tentando encontrar um caminho para casa. É difícil descrever como me sentia na época. Imagine-se andando por dias em uma nevasca; você nem percebe que está andando em círculos. O peso das suas pernas no seu andar, seus gritos desaparecendo ao vento. Quão pequeno você pode se sentir, e quão longe a sua casa pode estar.

Lar. O dicionário o define como um lugar de origem, bem como um objetivo ou um destino. E a tempestade? A tempestade estava toda na minha mente. Ou como Dante, o poeta, colocou: no meio da jornada da minha vida, eu me vi numa floresta escura, pois tinha perdido o caminho certo. Eventualmente, eu encontraria este caminho, mas no lugar mais improvável.
"

(Trecho inicial de Patch Adams, 1998)

29.6.13

Porque

Porque não há mais a impressão plácida nestes momentos silenciosos, deixa que o instante corrido navegue para onde as ondas se esvaem, transformam-se em água de espuma rala, vencidas pelo tempo e pela suas próprias fraquezas.

Talvez mal soubesse dos painéis manchados de giz branco na superfície escura, marcas tão antigas que a água não pode mais apagar. Reescrever a história sem as manchas torna-se impossível, e os espaços deixados nunca estão em harmonia com o que quer ser reescrito. Há esse conflito árduo e cansativo que cega após anos a fio, uma desesperança furtiva que se alastra pelos corredores da memória.

Talvez achasse que, à medida que a vida percorre os caminhos mal traçados, incompletos, que, como indivíduo, deve preencher, as peças encaixar-se-iam como num grande jogo de montar. Não vê maneiras de jogar fora um pedaço de si mesma, como se tais fatos nunca tivessem acontecido. Como se simplesmente nada tivesse sido sentido.

De braços cruzados, passos largos, tenta acertar em cheio as poças d'água no gramado do parque, enquanto os olhos fitam os tênis ensopados, chutando pedras e terra molhada, os cadarços desamarrados pendendo para fora dos sapatos, desajeitada, ofegante. A chuva cai fina, dando ar e trégua à noite seguinte em que sentiu o corpo vacilando, irresponsivo, um torpor aliviado e entristecido com a sensação do deixar de existir, que ela tentara agarrar sem saber se a podia possuir.

6.3.13

Fitas no ventilador

Pelas palavras engasgadas de cantos empoeirados, memórias cavando em concreto acinzentado, correndo com as frases sob as mãos cerradas, onde os dedos apertam-se com alegria, com falta de atenção, com pavor e com fúria, esbravejando pela imagem das recordações contraditas, como pequenos vinis cujo segundo lado abafa-se num longo riscado, queria não contar mais histórias, porque estas não são mais para serem contadas nem lembradas, doídas nem aprendidas, e são tudo o que existe nestes tantos anos; queria voltar ao instante em que o fôlego era tão mais - ainda mais - destreinado, orações soando sem nexo, sussurros que a tempestade perdia num suplício desimportante, e as letras embaralhavam-se grudadas em uma grande teia, prontas para serem devoradas por um argumento onde a derrota, para o vencedor, nunca é feita de mágoa e de um hiato aflitivo, senão de uma tentativa de ressaltar que há o dia e há a noite, o quente e o frio, o sim e o não, sem nuances que palpitam a cada estação, em cada momento e para cada situação; e que, muito além de desvanecer o sorriso no olhar, destoa o andamento de uma sinfonia já tão desordenada, trovejando, sem saber para quais notas seguir, quando a vibração do piano deixa de descrever um conto em melancolia e cai em lágrimas de um desespero mudo, derrubando os prédios e as suas janelas de cortinas coloridas e construindo fortalezas de pedras e barro, sem portas, sem janelas, embaralhando no pensamento o que deve ser afastado e o que se deve manter bem junto ao corpo; queria que a quietude não tivesse reaprendido a assombrar como outrora fazia, quando não havia a companhia de quem me ensinou a viver tão bem esse absurdo, e foi embora quando fiz o vento bater nas minhas mãos; queria que nada mais fosse dito, pois de relevante quero que baste a maneira como dou os primeiros passos toda manhã. Pois não sei nada melhor do que já é sabido e as palavras soam como fitas de plástico amarradas no ventilador; pois quando explico, abro mais feridas em mim e em quem ouve; porque não consigo mais disfarçar essa perturbação de quem navega por mares sem direção nem vela.

Porque em silêncio, eu sou alguém melhor.