4.5.07

Os olhos dos pobres
Charles Baudelaire

Oh! Quer saber por que a odeio hoje. Será mais difícil para você compreendê-lo do que será para mim explicá-lo, não há dúvida; pois você é, acredito, o mais belo exemplo de impermeabilidade feminina que se pode encontrar.

Havíamos passado um longo dia, que pareceu breve para mim. Tínhamos, de fato, prometido que compartilharíamos todos os pensamentos um com o outro, e que, de agora em diante, nossas almas seriam apenas uma - um sonho nada original, pois, se não desejado por todos os homens, não foi realizado por ninguém.

No fim da tarde, um pouco cansados, sentamo-nos em frente a um novo café na esquina de um novo bulevard, ainda com restos de entulho, porém já exibindo gloriosamente seu esplendor. O café era charmoso. A lâmpada de gás exalava todo o calor de um estreante e iluminava com toda a sua força as paredes cegas pela sua brancura, tonteando folhas de espelhos, o ouro dos bastões e cornijas, pajens rechonchudos com grandes bochechas sendo puxados por cães em coleiras, senhoras aos risos com falcões empoleirados em seus pulsos, ninfas e deusas carregando frutas, tortas e as caças em suas cabeças, Hebes e Ganymedes de braços abertos, presenteando ânforas com creme bavariano ou obeliscos bicoloridos de sorvete - toda a história da mitologia à serviço da gula.

À nossa frente, na calçada, um digno homem de seus quarenta anos estava parado, com rosto fatigado, barba grisalha, e segurava a mão de um garoto enquanto carregava no outro braço outra criança menor, aparentemente fraca demais para caminhar. Ele estava desempenhando seu papel de governanta, e tinha levado suas crianças para passear ao ar da noite. Todos em trapos. As três faces estavam extraordinariamente sérias, todos os seus olhos contemplavam fixamente o novo café com similar admiração, mas cada um à sua maneira, devido à diferença de idade.

Os olhos do pai disseram: 'Como é belo! Como é belo! Poderia-se pensar que todo o ouro do mundo foi colocado nessas paredes.' - Os olhos do garoto: 'Como é belo! Como é belo! Mas é um tipo de lugar onde pessoas como nós não podem entrar.' - E os olhos da criança menor estavam por demais fascinados para expressar algo além de uma inocente e profunda alegria.

Cancionistas dizem que o prazer transforma a alma e amacia o coração. A canção estava certa esta noite, ao menos em relação à mim. Não apenas me senti tocado por esta família, como também ligeiramente envergonhado por nossos copos e garrafas d'água, que eram maiores que nossa sede. Desviei meu olhar em direção ao seu, minha querida, para ali ler meus pensamentos; mergulhei nos seus belos, estranhamente brandos olhos esverdeados, habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você disse para mim: 'Não posso suportar aquelas pessoas paradas ali, com aqueles olhos como as portas das carruagens! Poderia dizer ao maître para mandá-los embora?'

Tão difícil é entender um ao outro, meu querido anjo, e quão incomunicável é o pensamento, mesmo entre os apaixonados!


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Robert Smith (The Cure) inspirou-se nesse conto para escrever a letra de How Beautiful You Are (Kiss Me Kiss Me Kiss Me, 1987). Além disso, a linha de baixo dela é uma das melhores do Cure.

Ela fala.