Perguntou-lhe qual era a melhor lembrança da casa. Não soube dizer assim, de bate-pronto, tendo sido, a pergunta, feita de um modo abrupto demais, no meio de uma conversa que pouco lembraria um assunto como aquele. Apertou as mãos sobre a mesa, os olhos foram focar a copa do carvalho logo atrás dele e, por um momento, entristeceu o fato de a memória ter escondido sua melhor lembrança num lugar tão profundo, onde ela não mais podia encontrar quando bem entendesse; entristeceu-a a possibilidade de não mais a tê-la e, quando resolveu responder algo apenas para falar, para proferir palavras, já que uma pergunta feita, para ela, significava a obrigação da resposta, apenas sussurrou:
- O cheiro das flores no quintal dos fundos.
Não era. Ela sabia que era uma meia-mentira, e abaixou os olhos, envergonhada. Segundos depois, a sensação foi elevada às nuvens - meia-mentira, nem sabia se era possível mentir pela metade. Mentir mais ou menos, assim como se faz mais ou menos vinte e dois anos, ou assim como se vive mais ou menos.
Achou, porém, a resposta razoável, além de apropriada, pois o assunto pareceu ser esquecido. Ele levantou-se, satisfeito, caminhou até o balcão e pediu mais café sem açúcar. Por fim, virou-se para ela, acenou gentilmente e deixou a lanchonete.