11.1.08

b.


Onze anos. Meu relacionamento mais longo. Tirando a família próxima que, para o bem ou para o mal - no meu caso, felizmente, para o bem - é parte de nós pela vida toda.

Onze anos para aprender da maneira mais fácil, porque o relacionamento de duas criaturas assim é unilateral. Egoísta ao extremo - a maneira dela de pedir era tão sutil que eu só comecei a perceber o que cada gesto significava recentemente e, mesmo assim, não decifrei todos. Ela não brigava comigo por eu não ter percebido algo que ela queria, não ficava magoada por algo que eu pudesse ter feito à ela sem pensar. Exigência, apenas uma - que eu estivesse ali. Algo que ambas tentavam manter - seja eu, que a chamava cada vez que fosse mudar de cômodo, também por necessidade minha; seja ela, andando incansavelmente atrás dos meus passos.

E mesmo quando aquela vida começa a se esvair tão lentamente, você ainda pode perceber aquele brilho no olhar, que ele mantém até os últimos dos seus dias. Aquele brilho que sempre fazia meus lábios sorrirem e me faziam um dia mais claro. Um arco-íris que se formava quando seus olhos me encaravam. Faziam-me levantar da cama, todos os dias, porque o brilho dizia que não havia razão para ter medo - coisas boas estão por aí, coisas que aquecem o coração. Uma delas estava, naquele exato momento, encarando-me. E quando eu voltava para casa, com o corpo estraçalhado, quebrado em centenas de peças pequenas, procurando desesperadamente por algum abrigo por onde eu pudesse desaparecer e nunca mais voltar, eu a encontrava aqui, gigante em seus poucos centímetros, com aquele brilho no olhar só para mim, e me abraçava como se achara que eu nunca mais fosse voltar para casa, enquanto ia juntando mais uma vez, pacientemente, todas as minhas peças espalhadas pelo chão.

E eu mal a ajudava. Chorava até o amanhecer, porque dói o simples fato de estar sendo remontada. Tentar colocar tudo no lugar. Mas no dia seguinte eu acordava, o arco-íris estava lá e eu me via levantando novamente. Com o corpo completo.

(post modificado em maio/09 - o texto foi escrito em janeiro/2008.)