O Canal Futura está passando especiais do Chaplin ao longo desse mês de dezembro. Além de ter passado alguns documentários sobre o cineasta, já apresentou 'O Grande Ditador' e 'Tempos Modernos'. Dia 25, é a vez do último filme a passar, 'Luzes da Cidade' (23h30). Acho que os três são os mais conhecidos dele, adicionados ao 'Em Busca do Ouro' - para mim, o melhor dos quatro.Corajosamente, em pleno frescor da novidade que eram os filmes falados, Chaplin ainda fez três mudos: 'O Circo', 'Luzes da Cidade' e 'Tempos Modernos', os três com seu personagem mais famoso, aqui no Brasil chamado de Carlitos. Ele chegou a cogitar a possibilidade de fazer o Vagabundo falar apenas nos dois últimos filmes citados, mas acabou abandonando a idéia, entendendo que, se o Carlitos falasse nos filmes, perderia seu caráter universal, que fazia com que qualquer pessoa do mundo o entendesse sem que houvesse barreiras de idioma. Como resultado, apenas treze anos depois dos filmes falados terem ingressado nos cinemas, Chaplin trouxe o seu primeiro: 'O Grande Ditador'.
No filme, Chaplin faz dois papéis: Adenoid Hynkel, o ditador da Tomania, e um barbeiro judeu do subúrbio do país. Além de Hitler, ele ainda satiriza outros dois personagens reais da Segunda Guerra - Goebbels, ministro alemão que trabalhava diretamente com Hitler; e o ditador italiano Benito Mussolini - Garbitsch e Benzino Napaloni, respectivamente, no filme. Apesar do barbeiro judeu não ser propriamente o Carlitos - pelo menos na minha opinião - assim como houve representantes para Hitler, Goebbels e Mussolini no filme, acho que o Carlitos foi representado por esse barbeiro.
Uma semana depois de estourada a Segunda Guerra Mundial, em 1939, Chaplin começou a rodar 'O Grande Ditador', na surdina, pois os Estados Unidos ainda estavam em posição neutra com relação à Alemanha, e não queriam ninguém arranjando problema com os nazistas. Pelo menos assim pensavam os executivos da United Artists - Chaplin foi um dos fundadores da produtora e, na época, parte dela ainda era de propriedade dele e era por onde ele ainda lançava seus filmes -, que pensavam que um filme como esse teria dificuldade para ser divulgado, e tentaram fazer Chaplin desistir da idéia de satirizar o ditador alemão. Dizem que uma mensagem de Roosevelt, o então presidente norte-americano, foi o que encorajou Chaplin a ir em frente com seu projeto.
Por outro lado, há muito tempo Hitler sentia-se incomodado com o homenzinho que havia arrastado multidões em seu próprio território. Acreditando que Chaplin era judeu, o ditador chegou a colocar imagens dessa visita de Chaplin à Berlim num de seus filmes de propaganda nazista, além de ter inserido o nome do cineasta num de seus panfletos, denegrindo-o. Panfleto esse que, por intermédio de um amigo, chegou às mãos de Chaplin - e, dizem, foi o que fez surgir a idéia de fazer 'O Grande Ditador'.
Vale lembrar que, muitos anos antes, poucos meses antes do fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, Chaplin também satirizou um Kaiser em dois de seus filmes - o média-metragem 'Ombros, Armas' (no YouTube - partes: 1/2/3/4/5), onde ele é um soldado no meio da guerra; e no curta 'The Bond' (no Internet Archive), mostrando os laços que existem entre nós e qual ele achava o mais importante. Seu irmão Sydney Chaplin fez o papel de um ditador alemão nos dois filmes. Assistindo 'Ombros, Armas', é possível encontrar várias semelhanças entre ele e o filme lançado no começo da Segunda Guerra.Chaplin demorou um ano e meio fazendo 'O Grande Ditador' e, no mesmo dia que foi gravar a cena de seu discurso mais famoso, Hitler chegava à Paris, tendo conquistado a França nos dias anteriores.
Depois de pronto, 'O Grande Ditador' teve, de fato, a divulgação dificultada, foi censurado em muitos países - incluindo o Brasil -, muitas críticas acerca de se fazer humor com algo tão grotesto - anos depois, o próprio Chaplin disse que, soubesse ele da verdade daqueles campos de concentração, jamais teria feito o filme. Curiosamente, há relatos de que o próprio Hitler tenha assistido 'O Grande Ditador' duas vezes, mas o que ele teria achado do filme, ainda é um segredo.
Até hoje, pessoas acusam o Chaplin de ter sido deveras sentimentalista, em especial nas cenas do gueto. Mas acho que quando uma situação nos inquieta demais, nós ficamos sentimentalistas, mesmo. Basta ouvir grande parte das canções de amor que existem por aí. Às vezes fica difícil entender a razão por que as coisas foram colocadas de certa maneira quando não estamos passando por uma situação semelhante.
Vide eu, tentando ler há meses 'O Sofrimento do Jovem Werther', do Goethe - com um personagem que está apaixonadíssimo por uma moça que, obviamente, ele não pode ter. Imagino que pessoas apaixonadas dessa maneira por alguém, especialmente cujo amor não pode ser correspondido, são capazes de ler esse livro em menos de dois dias.
Outra coisa que é muito criticada em 'O Grande Ditador' é o discurso final do barbeiro judeu com a vestimenta do ditador - para alguns, soa ingênuo; utópico, até. Mas além de achar que nunca é exagerado espalhar idéias de paz, é diferente ouvir aquelas palavras sentados no sofá, com pipoca amanteigada do lado e uma sensação de tranquilidade do lado de fora de casa. Novamente, a crítica dificilmente vem de alguém que vive no contexto onde o barbeiro se encontra e faz seu discurso.
Imagine estar no meio de uma guerra, onde muitas vezes não se vê saída, com toda aquela tensão no ar, países sendo invadidos, pessoas sendo mortas aos milhares - e ouvir aquelas palavras finais do filme. Deve ser bem diferente.
Em 'O Grande Ditador', o humor tentava vencer as barbáries da guerra. Fazer rir era uma das formas de protesto, assim como era no teatro da Grécia Antiga, séculos atrás, e como ainda é nos dias de hoje.