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Solus

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Borrões de tinta

Sente o vento no rosto à medida que despenca no abismo, e as cores vão passando como borrões de tinta na frente dos seus olhos. O que aconteceu? Havia papéis no chão, desordenados, e temia não conseguir mais lê-los, porque eram tão caóticos, e não queria ter de se confrontar com seu próprio destempero. Não sabia de nada. Pelos olhos raivosos das flâmulas amarelo-carmesins percebia que o lugar não havia mudado; não estava mais no mesmo espaço, onde costumava ver pessoas. O que aconteceu? Precisava que os portões se abrissem além dos seus limites, e queria estar lá quando isso acontecesse, porque era um momento muito importante. Todas as cores eram brilhantes, e o cérebro brincava de fazer desenhos nas paredes. Um poema de silêncio, como um trem que passa atrás de uma cachoeira alaranjada - coloca no papel a angústia de um inverno indiferente, arrastado. Soam sinos no céu estrelado, chamando-a para uma próxima primavera. Não estão desgastados os sentimentos, eles fogem até o mar que rode

Paciência

Paciência A palavra que arde Nos pequenos corredores Cheios de gente Pedidos de lembrança Naqueles anos Um conflito por algo sem sentido E um poema de trilhos E cabeças Com uma tristeza vermelha A coragem é que vai dizer Se o copo de água salgada No corpo desengonçado Vai ter o sabor de uma lágrima Caindo pelo rosto Sentindo o corpo quente Dor de cabeça E o corpo arroxeado Pequeno Estático Gelado No chão de porcelana Sem a doçura do outono Que partiu mais cedo esse ano Por engano

O verão em Antaica

O verão em Antaica não era daquelas estações demasiadamente quentes; de fato, eram agradáveis - pareciam disfarçadas de outono, como se ele exigisse um tempo a mais para mostrar a beleza das folhas ocre que teimavam em cair no chão -; de modo que, às dez da manhã, colocou todos os sanduíches de geleia na cesta, apertou a tampa das garrafas e chamou as crianças para descerem até a praia. Ia caminhando pela rua de vestido esvoaçante, com a cesta em um dos braços. Não eram mais as mesmas, as pessoas. É importante que não sejam, que ninguém espere que permaneçam-se os mesmos trejeitos, os mesmos sonhos. Os cães do vizinho ladravam para um garto furtivo e, na esquina, ouvia-se o piano do senhor de cabelos vermelhos, aquele que diziam esconder um anjo no sótão, tão bonitas eram as sinfonias que tocava por dias sem cessar. Sua pátria estava no além-mar, e era lá que ele achava ter deixado seu amor. Na verdade, ainda tocava canções tão belas no instrumento, e quem passava pela rua, era tocad

Portishead

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Uma melodia soava partindo do piano antigo

Bate-se o martelo. Onde foi que esqueceu-se dos livros, dos pedaços de papéis? Todas saem de dentro dela como se a superfície fosse feita de fiapos de algodão-doce. Observa de maneira confusa um grande labirinto de paredes de cores fortes, a céu aberto, onde a chuva pode tocar e pode-se usar toda a imaginação que ela traz. Vê insetos nas paredes, sobre ela mesma, ouve os próprios pensamentos atordoando-a em conselhos, pedidos e ordens em um girar contra os pedaços de si mesma, e pergunta-se como ideias surgiram, com tantos detalhes, com tanta verdade. Será verdade? As realidades são chamadas 'realidades' porque todas elas existem. E se é mais feliz onde certas minúcias estão na claridade do coração que não tem medo de ilusões. Faz-se partir em caixas cada uma das realidades, e coloca-se um aviso colado em cada uma delas: cuidado. E se ela as joga no mar, e guarda as ilusões consigo, como pode ter certeza de que os pensamentos surgem realmente da mente dela? Às vezes, a sala

Os pássaros estão molhados

- Os pássaros estão molhados. - disse ela, a outra. Pelo céu não podia-se ver as penas dos animais, mas supôs que os olhos biônicos dela podiam imaginar o que fosse naquele círculo de certezas, de estranhezas frente a todos os sentimentos do mundo. Não era ela que deveria desaparecer. Devia-se encontrar uma maneira de conviverem juntas, porque ela trazia magia demais para a vida para ser desprezada para sempre. Acordou nas nuvens e os passos no espelho não lhe disseram o que iria fazer até então. Uma corda puxada por um triste, ressoando palavras de esperança e cansaço, enquanto corria nos campos, recém saída de cantos, em fúria, deixando os espaços avermelhados e passando logo aos arroxeados, sem escalas, acalmando-se, e olhava para trás e via os azuis e esverdeados chamarem-na apenas para checar se ela estava pronta. Não estava - pensava. Mas o fato de ter conseguido passar direto pelos portais do pensamento, com suas estranhezas e defeitos, com sua sabedoria falha e sua feição