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Os pássaros estão molhados

- Os pássaros estão molhados. - disse ela, a outra.

Pelo céu não podia-se ver as penas dos animais, mas supôs que os olhos biônicos dela podiam imaginar o que fosse naquele círculo de certezas, de estranhezas frente a todos os sentimentos do mundo. Não era ela que deveria desaparecer. Devia-se encontrar uma maneira de conviverem juntas, porque ela trazia magia demais para a vida para ser desprezada para sempre.

Acordou nas nuvens e os passos no espelho não lhe disseram o que iria fazer até então. Uma corda puxada por um triste, ressoando palavras de esperança e cansaço, enquanto corria nos campos, recém saída de cantos, em fúria, deixando os espaços avermelhados e passando logo aos arroxeados, sem escalas, acalmando-se, e olhava para trás e via os azuis e esverdeados chamarem-na apenas para checar se ela estava pronta.

Não estava - pensava. Mas o fato de ter conseguido passar direto pelos portais do pensamento, com suas estranhezas e defeitos, com sua sabedoria falha e sua feição m…

Poesia

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Tem gente que é poesia

Portas

O último pedaço de geleia caiu no seu prato sem que ela percebesse que sujara a sua camisa, e sorriu. Como saber se o céu coloriu-se de uma hora para outra, como saber se ainda vive? Ela sabia que os pedaços de travesseiro do seu quarto não estavam mais amarelados das contas do dia anterior, e sabia que todas as suas roupas estavam dentro do armário esperando que tudo acontecesse.

Na noite anterior, em que os lençóis passavam de mãos em mãos até que sujassem-se todos no chão, ela sussurrava no ouvido de um alguém que aparecia refletido em um pote de vidro. Não sabia mais como enjaular este sentimento, não sabia mais por que prendê-lo, e saiu do turvo para o carmesim em todas as suas facetas. Derreteu-se à imagem de um olhar que a colocou novamente no lugar onde estivera em todas as vezes que gritou, e sentiu-se desvanecer rapidamente até que a lua escondesse-se atrás de nuvens rosadas que ela pensava ser os mesmos elefantes daquele lugar onde ela não aparecia mais no jardim.

Ela nã…

Sinédoque

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Como os quadros de Van Gogh

Não havia nada a dizer enquanto ela entrava no seu encanto usual. Se os lagos eram mais turvos e em carmesim, sentava-se no chão com as pernas cruzadas, segurando sua alma com os braços para que ela não vazasse para fora de si mesma, espalhando-se universo afora.

Ia-se embora com certo sorriso no olhar, alívio no coração, quando podia estar ali, porque havia todas aquelas cores e as águas tornavam-se mais límpidas; as corredeiras não tentavam, em uma forte torrente, tirar o restante do seu ponto de apoio; era como uma brisa que molhava calmamente as suas pernas e encharcava seus sapatos; seja em que direção pudesse-se ir, deixava-lhe que quebrasse momentaneamente o fluxo.

Não evitava o labor segurar-se na sua alma. Ela parecia lhe fugir por entre os dedos, como água que se tenta conter em um bote cheio de furos, enquanto ela apertava as mãos nos ombros até que as pontas dos dedos se avermelhassem. Via-se esvanecer com certa tristeza, porque já lhe havia ido embora o tempo do desespe…

Elas ainda dizem que vão embora

Elas ainda dizem que vão embora enquanto o sol surge todas as manhãs. Os guarda-chuvas abrem-se num instante em que a maior parte das nuvens está em outro pedaço do céu, e vão escurecendo conforme chegam nas nossas cabeças, e não há o que possa tirar a sensação de que se está perdido assim que ficarem a um palmo do céu sobre nós. Ainda não se sabe se haverá algum lugar para se esconder.

Sabe-se que as gotas podem queimar quando há fogo por detrás delas, mas elas não se importam com esse pedaço de realidade onde pensam estar envolvidas; elas não sabem que não estão mais ali e, quando a tempestade começar a cair, não se sabe se vão saber voltar, porque não querem desaparecer com toda essa chuva, quebrando os telhados das casas, encharcando as varandas e derrubando os vasos de flores; elas querem apenas ir embora como gotas sendo rapidamente condensadas pelo calor antes mesmo de tocarem o chão.

Como se fossem faróis

Ao passo que desço as escadas com as flores nas mãos, olho a rua enevoada desta manhã acinzentada, onde os carros coloridos passam sem ruídos, e as árvores balançam um sorriso vermelho quando os meus olhos caem sobre elas; ela não devia ter visto o sol nascer naquele dia, com aquele estranho olhar que desceu no concreto verde-musgo do muro do final da rua - saía sem freios, corria ao vento, de passadas nervosas, e caía nas poças de água, sujando o seu vestido amarelo e ouvindo os chamados gritando, indignos, do próprio cérebro a trabalhar sem a sua permissão; olhava as estrelas caindo como se fossem faróis sobre ela e assustava-se, por um segundo, porque a luz ia cegá-la caso ela não chegasse ao seu destino antes que aquele momento cessasse.

Se ela soubesse dos dias em que podia sair sem evenenar-se, sairia, portanto. Os olhos vendados com uma tira escurecida ainda deixavam passar através do pano pequenos detalhes que ela não veria se os olhos estivessem limpos, e isso fazia com que …