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A pluralidade da existência

Caminha hesitante em direção ao calhamaço para compreender profundamente os tempos dantes arraigados. Será que era mesmo tão díspar em determinadas condições? Precisaria - agora de forma consciente -, deixar de estar em instantes estabelecidos e abnegar ao seu respectivo espaço para que um alguém passe a direcionar o corpo nas venturas do tempo, amiúde sem ser obrigado a coletar - de uma certa maneira, porque nunca se deixa de existir - os frutos maturados da colheita em questão. As estrelas nas árvores diferem com os mesmos raios do sol porque a forma e a distância entre as folhas são desiguais. Desde quando há partes tão delimitadas pelas tempestades de outroras? Sabe que os temporais molham mesmo os sob os guarda-chuvas, e as ondas não atingem as rochas da costa com o mesmo vigor, mas não consegue conceber como certos tipos de circunstâncias são sustentados com o que lhe parece ser tão bruta coerência. Fecha-se um ciclo. As crenças não são mais as mesmas - não existe mais a espera

Calar

calar a voz que grita no momento mudo triste, rubro no escuro calar o que se ouve nos momentos mais profanos sentar-se, relutante cansada o ar faltando numa mágica em que um só ruído soa corta o vento num sussurro aguçado impregnando o ar com a matéria de um instante estagnado, distante, presente, um sonho-pesadelo repetido movimentos que se afiam nos meus olhos um espelho cuja imagem desconheço e um pedaço da partida da chegada debaixo de uma tempestade amarga

Solus

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Borrões de tinta

Sente o vento no rosto à medida que despenca no abismo, e as cores vão passando como borrões de tinta na frente dos seus olhos. O que aconteceu? Havia papéis no chão, desordenados, e temia não conseguir mais lê-los, porque eram tão caóticos, e não queria ter de se confrontar com seu próprio destempero. Não sabia de nada. Pelos olhos raivosos das flâmulas amarelo-carmesins percebia que o lugar não havia mudado; não estava mais no mesmo espaço, onde costumava ver pessoas. O que aconteceu? Precisava que os portões se abrissem além dos seus limites, e queria estar lá quando isso acontecesse, porque era um momento muito importante. Todas as cores eram brilhantes, e o cérebro brincava de fazer desenhos nas paredes. Um poema de silêncio, como um trem que passa atrás de uma cachoeira alaranjada - coloca no papel a angústia de um inverno indiferente, arrastado. Soam sinos no céu estrelado, chamando-a para uma próxima primavera. Não estão desgastados os sentimentos, eles fogem até o mar que rode

Paciência

Paciência A palavra que arde Nos pequenos corredores Cheios de gente Pedidos de lembrança Naqueles anos Um conflito por algo sem sentido E um poema de trilhos E cabeças Com uma tristeza vermelha A coragem é que vai dizer Se o copo de água salgada No corpo desengonçado Vai ter o sabor de uma lágrima Caindo pelo rosto Sentindo o corpo quente Dor de cabeça E o corpo arroxeado Pequeno Estático Gelado No chão de porcelana Sem a doçura do outono Que partiu mais cedo esse ano Por engano

O verão em Antaica

O verão em Antaica não era daquelas estações demasiadamente quentes; de fato, eram agradáveis - pareciam disfarçadas de outono, como se ele exigisse um tempo a mais para mostrar a beleza das folhas ocre que teimavam em cair no chão -; de modo que, às dez da manhã, colocou todos os sanduíches de geleia na cesta, apertou a tampa das garrafas e chamou as crianças para descerem até a praia. Ia caminhando pela rua de vestido esvoaçante, com a cesta em um dos braços. Não eram mais as mesmas, as pessoas. É importante que não sejam, que ninguém espere que permaneçam-se os mesmos trejeitos, os mesmos sonhos. Os cães do vizinho ladravam para um garto furtivo e, na esquina, ouvia-se o piano do senhor de cabelos vermelhos, aquele que diziam esconder um anjo no sótão, tão bonitas eram as sinfonias que tocava por dias sem cessar. Sua pátria estava no além-mar, e era lá que ele achava ter deixado seu amor. Na verdade, ainda tocava canções tão belas no instrumento, e quem passava pela rua, era tocad

Portishead

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